Zayde Tavares trabalha no hospital público Menandro de Farias, um hospital de médio porte que fica no coração da estrada do coco em Lauro de Freitas, região metropolitana de Salvador, Bahia. Enfermeira mil e uma utilidades, ela trabalha de segunda a sexta, todas as manhãs, no setor de internados – que abrange desde a pediatria e obstetrícia à clinica médica – e às vezes cobre plantões na ala de emergência. Normalmente fica encarregada de cuidar de 20 pacientes, mas queria mesmo era estar em ambulatório.
O Menandro é um hospital que recebe uma grande quantidade de pacientes? Qual a área de abrangência do hospital?
O Menandro deveria atender somente Lauro de Freitas, mas atende também de outras cidades, desde a população flutuante que passa pela Estrada do Coco até a Linha Verde, como também alguns bairros distantes de Salvador, e pessoas do interior. Tem dias que não tem lugar na emergência. Quando acontece tiroteio entre policiais e assaltantes nos bairros mais pobres da cidade, ou quando houve algum acidente de carro na estrada, os feridos têm que ser atendidos nos corredores, disputam lugar com os pacientes já esperados.
Qual área do hospital é responsável por maior número de óbitos?
A emergência é a principal, porque é aonde chegam os pacientes em estado mais grave, é onde fazemos os primeiros socorros. Mas a clínica médica também é responsável por uma grande porcentagem de óbitos. Porque são na maioria pacientes idosos, acamados, desnutridos, desidratados, alguns em fase terminal de câncer, ou até mesmo pessoas que eram para estar em UTI – mas o hospital não possui UTI, então elas são instaladas lá.
Pode-se dizer que você já se acostumou com o nível dos pacientes que freqüentam o HMF? Você busca não se envolver emocionalmente com eles?
Tem certos tipos de casos que eu posso dizer que já me acostumei, são vinte anos trabalhando com isso. De certa forma você acostuma. Agora, tem casos que tocam mais a gente. Às vezes é a família do paciente que faz você se envolver. Acontece de idosos serem internados e algum acompanhante da família estar ali do lado o tempo inteiro na esperança que ele se recupere e, ao mesmo tempo, você sabe que ele não vai recuperar. Ou então, quando uma pessoa jovem que chega lá e você sabe que não tem mais jeito, ou quando outro jovem não consegue transferência para um hospital especializado, fica dias internado e morre sem a gente poder fazer nada.
Mas ao mesmo tempo, quando uma pessoa idosa que está internada e sofrendo morre você não consegue sentir pena porque ela descansou. Porque em alguns casos o sofrimento é tanto que você pensa: “se fosse eu, preferia ir embora do que ficar assim”.
Com todos esses casos que você presencia, o que te faz pensar sobre a morte? Você acredita em vida após a morte?
Eu acredito, porque sou católica e freqüento a igreja semanalmente. Quer dizer, eu acredito ao ponto de querer que exista, de que todos sejam julgados por Deus e salvos no final. Mas não dá pra saber o que vai acontecer com essas pessoas, porque você nem mesmo sabe como elas são. Às vezes tem uma pessoa que fica lá sem ninguém, ai você pensa que a pessoa aprontou, fez algo de ruim. Mas também pode ser uma pessoa boa, então você imagina pelo que ela pode ter passado. Porque sempre tem aquela que foi uma pessoa boa e que ajudou todo mundo, mas que agora não tem ninguém que a ajude. É sua situação muito humilhante você estar precisando de apoio e não ter nenhum filho ou parente que possa estar ali com você e te acompanhar na tristeza.
Mas eu não posso julgar. Só Deus pode saber o que aconteceu com cada pessoa. E às vezes o sofrimento pode purificar… sinto tanta pena de tantas pessoas que passam por lá.
Um hospital público geralmente passa por dificuldades de gestão, seja por má administração ou por falta de dinheiro. Como vocês fazem para lidar com isso?
Nós temos muita dificuldade. Porque além dos materiais que sempre faltam no estoque, muitas pessoas colocam atestados de 15 dias e não vão ao trabalho. Então nós ficamos sem pessoal para reposição e sobrecarregamos outros profissionais. Tem profissional com problema de saúde por ficar encarregado de ficar tapando buraco dos outros.
Nós também temos problemas com leitos, diversas vezes os pacientes de ortopedia ficam na ala de obstetrícia ou mesmo no corredor. É uma demanda muito maior do que a que o hospital suporta.
2º semestre de 2009