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Diretor de documentário sobre Belo Monte conta suas impressões sobre o assunto

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Foto: Divulgação

Para André D’Elia, o Brasil não tem noção do que acontece na Amazônia. Não há informação e qualquer artigo que descreva um dos problemas enfrentados é pouco comparado a imensidão da floresta.

Há quase dois anos, o cineasta está focado na luta contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu (Pará), quando resolveu fazer um documentário sobre o tema. Desde então, tem coletado depoimentos, conhecido pessoas, lugares e trabalhado para concluir o filme que mudou o seu modo de ver a região.

D’Elia afirma que Belo Monte vai trazer impactos negativos aos povos indígenas e à comunidade do rio Xingu, mas também acha que o cenário ainda pode ser revertido, com o apoio da sociedade brasileira em favor da preservação da Amazônia e o desenvolvimento sustentável local.

O que o cineasta viu e ouviu na Amazônia, a sociedade brasileira só poderá saber quando Belo Monte, anúncio de uma gerra for lançado. Mas o internauta do EcoDesenvolvimento.org pode ter um gostinho do filme nas palavras que André D’Elia nos oferece na entrevista abaixo.

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André D’Elia e a equipe de áudio e fotografia entrevistam no rio Xingu/Foto: Divulgação

Portal EcoDesenvolvimento.org: Com apenas uma parte das imagens que vocês coletaram em um pequeno vídeo divulgado no Catarse, o Brasil se mobilizou para financiar o documentário sobre um dos temas mais polêmicos da atualidade. Na sua opinião, por que isso aconteceu?

André D’Elia: Eu acho que o público tem interesse nas questões do desenvolvimento da Amazônia, porque de certa forme é uma questão mundial. A gente falar sobre o modo como o mundo lida com as riquezas da Amazônia, interessa aos brasileiros e também aos estrangeiros. Esse também é um tema em bastante evidência, que não pensávamos que estaria assim há dois anos atrás, quando a gente começou.

Acho que as pessoas estão dando mais importância porque perceberam que agora é a hora de se esclarecer questões ligadas à Amazônia. Eles querem fazer parte desse coletivo de ajuda.

“No princípio, eu não era contra. Mas hoje posso afirmar que Belo Monte é um erro.”

Como o rio Xingu despertou o seu interesse?

Há vários projetos de hidrelétrica na Amazônia, mas Belo Monte é o maior e será construído no rio Xingu. E como o rio Xingu é um rio dos índios, é uma bacia grande com muitos povos indígenas, no início, eu só enxergava o conflito entre os povos indígenas, o empreendedor e o governo federal – e queria documentar aquilo.

Quais motivos te fazem ser contra a instalação da Usina de Belo Monte?

No princípio eu não era contra. A gente queria fazer um trabalho imparcial sobre o processo de instalação da hidrelétrica. Mas hoje posso afirmar que Belo Monte é um erro. Primeiro por questões da legislação brasileira, principalmente, no que diz respeito às oitivas indígenas. A Constituição brasileira prevê que qualquer tipo de aproveitamento hidrelétrico em terra indígena obriga que os povos sejam ouvidos.

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D’Elia (de branco) entre os primeiros participantes do documentário/Foto: Divulgação

Mas depois que passamos tanto tempo conhecendo a região e vendo os efeitos que a hidrelétrica irá causar, é muito fácil ficar contra a instalação da barragem. Não é que a gente seja contra Belo Monte. Nós somos contra a violência com a qual Belo Monte está sendo implementada e a violência que ela gera na região.

Tudo isso envolve questões sociais como prostituição, aumento de estupro, violência contra povos indígenas, problemas sérios de governabilidade em relação às verbas emergenciais; poluição do rio Xingu. Coisas que têm que ser vistas com muita atenção e estão sendo feitas de forma atropelada.

Como foi o início da produção do documentário?

Para viajar e fazer as gravações eu juntei um dinheiro que tinha guardado com a venda de uma moto e um carro. Na verdade, eu cheguei a ficar sem bem nenhum. Na primeira expedição fomos eu e dois parceiros, um diretor de áudio e um fotógrafo. Isso foi na época da licença parcial de Belo Monte, o que é muito louco porque não faz mais de um ano e a nossa mentalidade mudou muito. Na primeira expedição a gente era a favor da barragem, a prefeitura era a favor, os indígenas também. Todo mundo achava que a barragem ia ser uma maravilha. Muito diferente de hoje quando todo mundo é contra.

“Eu espero que a história dos povos indígenas sensibilize o público. A gente levanta uma bola para que as pessoas possam se ver naquilo.”

Qual história que você escutou que melhor descreve situação no Xingu?

Certa vez eu ouvi de um jornalista que os projetos para a Amazônia são impostos. Ou seja, os projetos de mineração e os hidrelétricos não são implantados por pessoas que estão na Amazônia, eles são projetos que vêm de fora, de interesses que desconsideram completamente os aspectos locais.

Lá você tem uma região com tanta diversidade econômica, como castanha, açaí, praias lindas para o turismo, medicina da floresta dos povos indígenas, mas tudo isso é completamente ignorado. Em vez disso, se implementa projetos que só querem retirar e não desenvolver.

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O filme deve ser lançado em abril/Foto: Divulgação

Qual a sua expectativa para a reação do público pós-filme?

Eu espero que a história dos povos indígenas sensibilize o público, e que isso contribua muito para o desenvolvimento de uma ética empresarial e de consumo. Porque, no filme, a gente questiona não só o empreendedor que está cometendo uma série de crimes na região, a gente também questiona o consumidor de energia e o modo de vida das pessoas. A gente levanta uma bola para que as pessoas possam se ver naquilo.

“A ideia é ter o filme já pronto em abril para o lançamento.”

Como foi a experiência de gravar tanta informação sobre um mundo ao qual você não estava acostumado?

Foi muito interessante. Quando as pessoas viam que a gente estava montando o filme sobre o assunto, a cada dia surgia novos depoimentos de gente querendo contar alguma sujeira que sabia. A gente virou uma espécie de concentrador de informações que informava e se deixava informar.

Quando vocês pretendem lançar o documentário?

Nós estamos em fase de montagem, que é uma fase complicada, porque temos muito material e ainda não temos certeza de tudo que vai ficar de fora. Mas a ideia é ter o filme já pronto em abril para o lançamento. Depois, nos pretendemos fazer projeções gratuitas e levar para o cinema.

Nós também temos que colocar na internet, que foi até um compromisso que acertamos com os financiadores do Catarse. Mas estamos pensando se vamos fazer algum corte ou colocar em uma linguagem diferente, própria de internet.

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Entre as gravações de ‘Belo Monte, uma guerra anunciada’/Foto: Divulgação

Após tanto tempo de viagens e conversas com diferentes pessoas, qual foi o seu maior aprendizado na produção do documentário?

A relação das pessoas. Eu moro em São Paulo, e mesmo amando meus familiares e amigos, vejo eles muito pouco. Mas em uma comunidade indígena as pessoas fazem tudo juntos: comem, tomam banho, dançam, tomam sol… Há uma convivência e um sentir as pessoas de uma forma muito plena. É um aprendizado que eu venho tentando colocar em prática. Eu tenho ligado para meus familiares e dado mais valor aos preciosos momentos em que eu estou na companhia de quem amo.

No dia 17 de dezembro, cidadãos paulistanos foram às ruas em favor dos povos indígenas e contra a construção de Belo Monte. A mobilização foi registrada por D’Elia. Confira o vídeo “Veta Dilmavez”.

BELO MONTE, VETADILMAVEZ from André Vilela D’Elia on Vimeo.

Quando um projeto de vida vira a possibilidade de um futuro melhor

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Apresentação dos MM quando a ONG ainda estava no início/Foto:Acervo pessoal

O grupo musical Meninos do Morumbi (MM) já encantou plateias de vários lugares do mundo (Estados Unidos, Alemanha, França) com a sua qualidade musical. Criada há 15 anos pelo maestro Flávio Pimenta, ela é formada por meninos e meninas de São Paulo, em sua maioria moradores de favelas da capital. Mas se engana que esse é mais um trabalho de ONG querendo ajudar as crianças em risco.

A MM tem quase uma postura de negócio social, e consegue arrecadar grande parte do dinheiro necessário com o próprio trabalho. Os meninos que entram na ONG são ensinados a buscar um futuro melhor para si, com lições de cidadania, boas escolhas e empenho. A música é apenas um pretexto para desenvolver esse lado humano nas crianças, mas também vira um emprego, educação e sentimento de pertence do mundo.

Nesse Dia do Voluntário (que será comemorado no dia 5 de dezembro), o EcoD traz um modelo de voluntariado diferente, onde o criador encontrou na criatura um modo de realizar seu sonho. E os envolvidos encontraram um sonho para sonhar junto.

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Flávio Pimenta (perfil)/Foto:Acervo pessoal

Portal EcoDesenvolvimento: Desde quando você estuda música?

Flávio Pimenta: Eu comecei a estudar música com nove anos de idade. Comecei com música erudita, percussão clássica, e na juventude eu tocava bateria, percussão, me apresentava com artistas, e continuei estudando. Me formei na Escola Municipal de Música de São Paulo… Mas depois dos meus 20 anos eu migrei para outra área, com projetos com empresas, escolas, estúdios, produção de jingles, até trabalhei com fábricas americanas, quando abriu o mercado de projetos pedagógicos de marketing, ajudando as fábricas a se instalarem no Brasil com parcerias.

Como surgiu a ideia de criar a ONG?

Em 1996, quando eu estava prestes a me mudar do Brasil. Eu moro no Morumbi, que é um bairro até legal de São Paulo, mas é cercado de favelas, e eu acabei chamando para o meu estúdio, na minha casa, algumas crianças que estavam de bobeira na rua, pedindo esmolas. Para convencê-los a entrar na onda das aulas eu os chamei para a ‘minha banda’, assim eles se interessaram rápido.

Primeiro vieram três, depois seis e dez. Eu ensinava música a eles da mesma forma que ensinava os meus alunos regulares. Até que nos apresentamos e, mais tarde, fui procurado por uma instituição que lidava com crianças da FEBEM, para dar aulas de música também, e a ONG surgiu naturalmente.

Acabei não indo embora do Brasil, fiquei por aqui, e em 1997 a ONG foi formalizada.

Qual o papel da música nesse projeto?

Olha, eu costumo dizer que a música é uma boa armadilha, mas ela não muda ninguém. Se a música conseguisse sozinha transformar as pessoas, Amy Winehouse não era o que era, Jim Morrison não tinha morrido, nem Jimi Hendrix… Você vê que nem todas as pessoas que são bons músicos são bons cidadãos, boas pessoas, com bons valores. Eu acho que a música é sedutora, aquela história de tocar junto, conviver em banda, viajar, aprender a ouvir e a compartilhar música, nesse sentido, é um contexto sedutor, como outros poderiam ser.

Nosso trabalho não é exatamente ensinar nada, embora temos inglês, informática, pintura, escultura, dança, canto, esporte… um monte de curso. A ideia não é ensinar repertório a eles, a gente quer sim, blindá-los das coisas ruins da rua e a gente também pretende que eles vivenciem bons valores. Porque bons valores ninguém ensina, você tem que vivenciar. É aquele tipo de coisa que se você tem é por conta do seu pai ou de sua mãe ou amigos, e nós aqui somos um espaço de educação para valores.

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Apresentação musical em evento sobre a África do Sul/Foto: Ana Costa/Divulgação

Como é feita essa educação para valores além dos cursos oferecidos?

Através de cursos, por exemplo, agora temos um curso de meio ambiente com a Universidade de São Paulo, sobre sustentabilidade, questões ligadas à reciclagem, entre outras coisas. Nós já tivemos cursos na área de direitos humanos com uma professora da Faculdade de São Francisco. O tempo todo tentamos abrir para eles essa janela de coisas boas.

Mas quando a gente fala de educação para valores, é importante entender que nós somos parceiros da escola, ganhamos um prêmio do UNICEF por nossas parcerias com escolas públicas. Nós não admitimos que nenhum menino esteja aqui sem estar na escola regular. Outra preocupação é o atendimento da família, nós temos uma parceria com a pós-graduação da PUC na área de família e comunidade, para dar atenção aos pais e a família da criança.

Como era o dia a dia da ONG no início?

Nós começamos na minha casa, depois eu aluguei um imóvel e no ano seguinte, em 1997, ela se tornou pessoa jurídica formal. Viramos uma instituição sem fins lucrativos que funcionava numa casinha alugada, mas os ensaios aconteciam na rua porque era um grupo muito grande, nós tínhamos já mais de cem jovens no primeiro ano. Depois alugamos um prédio grande, e compramos esse prédio em 2004.

Esse foi um projeto original, sabe? A gente não pede dinheiro às pessoas e foge do estigma assistencialista. Nós temos 80% do orçamento autossustentável e os outros 20% com projetos de lei de incentivo, de parcerias com empresas na área de primeiro emprego. Nós sobrevivemos de shows e produtos que vendemos. Nossas apresentações são muito requisitadas e, em contra-partida, pedimos um valor de referência em forma de doação, que é um cachê disfarçado. Isso, mais a venda de CDs e DVDs, com gravadora fora do Brasil e copyrights soma 80% do nosso orçamento.

Quem são as crianças que são assistidas pelo projeto?

Nós já atendemos, nesses 15 anos de trabalho, 13485 crianças até julho de 2011. Matriculadas hoje são 1.700 e poucas. Mas nós fazemos essas inscrições gratuitamente, como manda a alma da gente. Nós damos prioridade as crianças mais vulneráveis, mas também recebemos crianças de classe média e alta. Não fazemos nenhuma distinção de credo, cor, classe social… aqui dentro é tudo gratuito, todo mundo usa a mesma camiseta e a gente administra as diferenças tentando lidar com isso.


Em 2007, a banda Meninos do Morumbi se apresentou com Sandra de Sá no Auditório do Ibirapura (SP)/ Vídeo: Film Planet, com direção de Flávia Moraes

Como faz para a criança se inscrever no projeto?

Não há exame ou condição para a inscrição. Apenas exigimos que, depois de inscrita, ela esteja matriculada em uma escola regular e frequente os cursos. Essa é a questão mais importante: a escola e as notas. Qualquer criança de cinco a 12 anos pode se matricular, nós ficamos com ele até a universidade, conseguimos bolsas, primeiro-emprego após os 16 anos, como o ECA permite.

Mas só recebemos até 12, porque a gente quer eles bem jovens e novinhos para poder acompanhar o crescimento. Depois dos 12 eles estão muito prontos, já com uma identidade, às vezes, bem definida e a gente tem mais trabalho.

Você diz que o trabalho realizado pela ONG não tem objetivos assistencialistas e sim de resgatar a auto-estima das crianças assistidas. Fazendo uma análise mais profunda das crianças carentes que frequentam o Meninos… qual a importância desse trabalho na vida delas?

Veja, aqui elas podem se desenvolver em um espaço blindado às coisas ruins que a rua oferece, e podem também ter acesso a coisas que, principalmente as crianças de um nível socioeconômico mais baixo, não conseguiriam alcançar. Um exemplo é o curso de inglês, da Cultura Inglesa, que é o curso oficial do conselho britânico; e as viagens para fora do Brasil.

Esse também é um lugar onde a criança dá conta sozinha de que ela tem que empreender algo e organizar seus estudos. Ela entende que sucesso é 70% trabalho duro e 30% sorte e talento, e isso reflete na maneira de ela entender a vida.

Hoje a gente já está recebendo a segunda geração. Nossos primeiros exemplos de sucesso fizeram universidades e trabalham, e já estão trazendo os filhos para cá.

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Foto: Ana Costa/Divulgação

Qual a importância desse projeto para você? Ele mudou a sua vida de alguma forma?

Olha, eu não parei a vida para ajudar coitadinho. Eu sou músico, apaixonado pela música, e mesmo que a ONG me tome muito tempo, em ensaios, arranjos e apresentações, eu tenho a minha própria empresa, sou empresário também de música. Eu acho que se eu pudesse criar um quadro da minha vida, eu diria que peguei o meu projeto de vida (que era ser músico, fazer turnê, tocar e compor, alcançar sucesso), peguei essa minha ambição e coloquei todo mundo dentro.

Ninguém me vê aqui como fundador ou diretor. Eu na verdade sou o band-leader, que cuida da banda, e acho que é por isso que funcionou. Isso também foi um norte porque a gente não dá resto pra criança. Tudo aqui tem muita qualidade, a gente não dá roupinha usada, brinquedinho usado. Todas as roupas, instrumentos, materiais usados têm muita qualidade e é muito bonito de ver.

Bike Anjo ensina iniciantes a andar de bicicleta com segurança

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Foto: Acervo pessoal

Cansado do estresse dos engarrafamentos, o publicitário Carlos Aranha buscou na bicicleta uma ideologia de vida mais saudável e fez dela o seu principal meio de transporte. Há quatro anos morando em São Paulo, o carioca entrou para um grupo de pedalada e resolveu agir pelo bem-estar da cidade ensinandando pessoas a também usarem a bike como um transporte seguro.

Junto com o amigo João Paulo, Aranha criou o site Bike Anjo, que oferece aulas de bicicleta nas ruas de todo o país. Na capital paulista, eles acompanham iniciantes no percurso de casa para o trabalho e adequam o tempo livre para perseguir o ideal de viver em cidades melhores e mais saudáveis.

Portal EcoDesenvolvimento.org: Como surgiu a ideia de criar um grupo para ensinar pessoas a andar de bicicleta?

Carlos Aranha: Essa é uma prática que já existia em São Paulo. Naturalmente, as pessoas mais experientes em pedalar no trânsito acabavam ajudando amigos ou conhecidos a começarem a fazer o mesmo. Só que isso era feito de uma maneira muito desorganizada, por conhecer alguém ou por indicação de alguém.

O projeto surgiu com o objetivo de organizar esse fluxo, fazer esse meio de campo, e juntar voluntários às pessoas que querem começar a usar a bicicleta como meio de transporte alternativo ao carro. Hoje o iniciante vai no nosso site, coloca o local que ele mora e o local em que ele trabalha, o dia que ele gostaria de experimentar e aí a gente consegue um voluntário na área dele que possa atendê-lo.

Você sempre gostou de bicicletas? Como surgiu essa sua relação com a bike?

Para falar a verdade, não. Eu gosto é de chegar rápido nos lugares, de praticidade. O apego que tenho não é pelo veículo em si, pela bicicleta, mas pela praticidade que ela me traz em uma grande cidade como São Paulo. Então, depois de sofrer muito em trânsito e em congestionamentos com carro, eu comecei a pensar na bicicleta como alternativa e vi que ela me dava muito mais facilidade e economia. Porque gasta-se muito menos dinheiro, você se estressa muito menos e chega mais rápido nos lugares. É uma forma muito mais agradável de viver a vida.

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A partir de que momento o grupo cresceu a ponto de ter instrutores em várias cidades do Brasil?

Foi muito rápido. Cerca de dois a três meses depois da criação do site, vários grupos em todo o Brasil, e até em Portugal, nos procuraram querendo fazer o mesmo, perguntando como a gente criou o sistema. Aí, rapidamente, a gente começou a trocar essa experiência, de uma forma que várias cidades no Brasil começaram a fazer a mesma coisa, coletar voluntários e indicá-los para quem estava querendo começar.

Vocês trabalham como uma rede ou é separado em cada cidade?

No momento, a gente está trabalhando como rede, porque todo mundo que procura o Bike Anjo, sendo de outra cidade, a gente indica para esses outros grupos. Mas a tendência é que esses grupos criem a sua própria interface.

Qual o combustível que move as 250 pessoas que trabalham como voluntários no Bike Anjo?

A intenção de viver em uma cidade melhor. A gente hoje está vivendo um caos em São Paulo, relativo a trânsito, poluição e muito estresse, muito barulho. A cidade é muito caótica, as pessoas não conseguem conviver bem e chegar aos lugares. Mas a gente sabe que a bicicleta é uma das soluções para isso. Quanto mais bicicletas e menos carros estiverem nas ruas, a gente vai viver em uma cidade menos poluída e mais agradável, com menos trânsito. Essa é a nossa motivação.

Você considera o Bike Anjo como um hobby ou vê algo a mais?

Eu considero essa atividade como uma ideologia prática. Como uma ideologia de resultado. Porque eu faço sim por prazer, mas é com uma crença muito forte por trás disso. É uma crença de que a gente realmente está mudando essa cidade.

Você acredita que o uso da bicicleta como meio de transporte vai crescer no Brasil?

Já está crescendo. Hoje, no Brasil, a gente tem mais bicicletas do que carros, quase o dobro, na verdade. A utilização nas grandes cidades é que depende de estímulo e, principalmente, de respeito por parte dos motoristas e poder público. Mas a tendência é só crescer. Aqui, em São Paulo, a gente observa que em dois anos mais do que dobrou o número de ciclistas que andam de bike diariamente na cidade. Sendo que 93% desses ciclistas estão usando a bicicleta para trabalho ou estudo, não é esporte ou lazer.

No Bike Anjo, por exemplo, a gente recebe mais de 100 pedidos de novas aulas por mês.

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A prática do Bike Anjo também está nas ruas do Rio de Janeiro/Foto: Divulgação

Quais os maiores desafios que encontramos hoje para ter a bicicleta como um meio de transporte viável, no Brasil?

O principal desafio hoje é fazer a população entender a bicicleta como um veículo qualquer que deve andar na rua, entre os outros carros.  Inclusive, pelo artigo 72 do Código de Trânsito, as pessoas em bicicletas têm preferência sobre outros veículos automotores. Quem criou o Código de Trânsito já previa que a bicicleta deveria ser uma alternativa estimulada, uma alternativa viável para as pessoas.

Qual a indicação que você dá para alguém que ainda está começando a aprender a andar de bicicleta, mas quer utilizá-la como meio de transporte?

A primeira coisa é entrar em Bike Anjo e ver a nossa sessão de dicas. Lá tem uma parte teórica importantíssima, que mostra como você deve se posicionar na rua, como você deve sinalizar, que tipo de equipamento você deve utilizar para se precaver. Boa parte da segurança do ciclista, assim como a segurança do motorista e do pedestre, está na direção defensiva. Se você está precavido com relação aos riscos que todo meio de transporte tem, você consegue evitar praticamente qualquer possibilidade de tomar um susto ou se acidentar.

O segundo ponto é buscar alguém que seja mais experiente (pode ser através do Bike Anjo) para acompanhar essa pessoa nas primeiras pedaladas. Assim, ela rapidamente vai pegar segurança e vai querer continuar para sempre.

Projeto baiano incentiva a beleza negra entre as crianças

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Foto: Divulgação

No Brasil temos as leis anti-racismo e de preservação da cultura negra, mas encontrar materiais que divulguem a beleza do afrodescendente ainda pode ser difícil. É de conhecimento público que os cabelos crespos, a pele escura e o nariz achatado não são tão bem vistos quanto a pele clara, o rosto fino e os fios lisos. Mas isso pode ser um problema.

Principalmente para as crianças, que precisam de uma referência para servir de exemplo a ser seguido, e assim moldar os próprios caráteres. Como as crianças negras pouco se vêem em papéis de alto status na mídia, essa tarefa de ver a conquista representada em pessoas com os seus fenotípicos se torna mais complicada.

Pensando nisso, um projeto que surgiu na faculdade de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (Ufba) quer incentivar a propagação da beleza negra, com seus penteados de tranças e torções. O TERERÊS foi criado por Taygoara Aguiar e ainda está em fase de captação de recursos.

Portal EcoDesenvolvimento.org: Por que você resolveu levantar a discussão do racismo?
Taygoara Aguiar: Decidi fazer livros infantis que tivessem personagens negros no meu trabalho de conclusão do curso de design da UFBA, porque eu não encontrava livros desse tipo para dar de presente para a sobrinha da minha namorada. Durante a pesquisa, fui descobrindo que esse problema se repetia na mídia e no livro didático e que era muito mais grave do que eu imaginava.

Qual a dimensão que você dá ao racismo no Brasil?
Acredito que o racismo no Brasil é um entrave para o desenvolvimento do país. O racismo coloca uma enorme parcela da população à margem das políticas públicas e da distribuição de renda. Acaba com a história e a identidade de um grupo étnico e, consequentemente, com sua autoestima. Acredito que o racismo é um fator a ser analisado, por exemplo, quando se pensa nos níveis de evasão escolar e violência da cidade.

Muita gente afirma que não há racismo no Brasil… Como você explica isso?
O modelo de relações raciais brasileiro é pautado no mito da democracia racial, que fala que não existem conflitos com base na raça ou cor de pele no Brasil. Deste modo, os conflitos raciais são tratados como questões sociais, como distribuição de renda ou escolaridade.

Por exemplo, fala-se muito que o preconceito é contra o pobre e não contra os negros. Mas quem é a maioria dos pobres no Brasil? Será que um negro vai deixar de ser “suspeito” em lojas de departamento só porque ele é rico? O mito da democracia fala que não há racismo no Brasil porque todo mundo é mestiço. Mas aqui o povo discrimina com base no grau de melanina. Quanto mais preto, mais discriminado.

Esse modelo com base na democracia racial é o motivo das pessoas acreditarem que não há racismo. Há racismo sim, só que ele é tão complexo e as pessoas têm tanta vergonha de assumir, que a sociedade prefere acreditar no mito e fingir que não tem.

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Aygoara Aguiar, autor do projeto/Foto: Acervo pessoal

Como esse racismo disfarçado influencia na autoestima das crianças?
Stan “Took” Williams diz que “quando um indivíduo é bombardeado diariamente com estereótipos negativos, ele é levado a acreditar e comprar para sí estes estereótipos. Odiando nele essas características (cor da pele, cabelo, etc) e, por vezes, atacando os seus iguais, que possuem as mesmas características negativas que ele próprio julga ter”. Esse é um exemplo de como o racismo influencia a autoestima e leva a negação do assemelhado etnico.

Você se considera uma pessoa com autoestima alta? Sofreu com algum problema de rejeição de beleza?
Estou em dia com a minha autoestima, apesar de não me enquadrar nos padrões de beleza hegemônico, minha namorada me acha lindo (risos).

O que é o projeto TERERÊS?
Fruto da parceria entre a Cardim Projetos e Soluções Integradas e do Laboratórios de Protótipos e Modelagem Digital da Escola de Belas Artes da UFBA, o projeto TERERÊS é uma proposta de série para TV com 12 vídeos didáticos de curta duração (aproximadamente um minuto e meio cada) feitos para serem veiculados nos intervalos da programação da TV pública local, com o objetivo de ensinar a crianças, através de histórias lúdicas e animadas, alguns penteados de matriz africana e seus significados.

O projeto tem como objeto de estudo a inserção cultural de novos materiais educativos que afirmem, incentivem e contribuam com a divulgação de um referencial estético afrobrasileiro. Há ainda a proposta de desenvolvimento de um site (divulgação, troca de experiências, conteúdo pedagógico) para crianças, jovens e educadores, além da distribuição gratuita de mil kits Tererês (DVD, Manual e kit para penteados), seguida por debates em escolas públicas e ONGs, através de parcerias com secretarias de Educação.

Qual a sua expectativa com o projeto?
Eu criei alguns objetivos para o projeto:

  • Contribuir com a discriminação contra o cabelo afro, tornando-o mais uma opção estética frente ao modelo hegemônico racista de beleza;
  • Promover o ensino de penteados afros e os seus significados, para crianças (site, DVD e escolas públicas);
  • Veiculação de referências estética afro-brasileiras para os 200 mil telespectadores.

Qual a importância de criar projetos como esses, que expõem a beleza das crianças negras?
A valorização da estética e da corporeidade de matriz africana (a beleza da criança negra está inclusa nessa estética) contribui com o aumento da autoestima do afrodescendente e ajuda no combate às atitudes discriminatórias em nossa sociedade. TERERÊS é um projeto que visa promover a identidade e cultura afro-brasileira entre crianças e adolescentes, que, nessa fase, estão buscando referências para compor sua própria identidade e determinar seus valores.

O projeto se torna relevante quando se nota que a carência de material, que aponte alternativas aos padrões estéticos da cultura hegemônica, resulta na rejeição acrítica da estética negra. Além disso, a proposta pode colaborar com a aplicação da Lei 10.639/2003, que institui o ensino da cultura negra brasileira e do papel do negro na formação da sociedade nacional a crianças e adolescentes.

A que pé está os TERERÊS? Você percebe alguma resposta por parte das crianças?
O projeto foi desenvolvido na disciplina que leciono na escola de Belas Artes da UFBA. O projeto de captação de recursos e o vídeo piloto despertou interesse da TVE (filial da TV Cultura na Bahia) e de alguns potenciais patrocinadores, mas sem nenhum apoio oficial ainda. O TERERÊS está em fase de captação de recursos, aguardando ser aprovado na Lei Ruanet e concorrendo ao edital da Telefônica.
Mas o vídeo piloto gera interesse em todos que assistem, inclusive as crianças.

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A fundadora da “Alice” conta como desenvolveu um “olhar menos viciado”

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A jornalista Rosina Duarte foi uma das fundadoras da Alice/Foto: Luiz Abreu

Em Porto Alegre e região metropolitana circula, há 11 anos, um jornal feito por moradores de rua. O Boca de Rua é uma iniciativa da Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação, a Alice, e já ganhou prêmios do Ministério da Cultura, Unesco e até um internacional, o International Network Street Paper, de Glasgow, na Escócia.

A ideia de promover comunicação como ferramenta de mudança social partiu da jornalista Rosina Duarte. Ela foi uma das fundadoras iniciais da Alice e está à frente das ações da organização.

O portal EcoDesenvolvimento conversou com Rosina sobre o seu trabalho e como ele mudou seu modo de ver o mundo por um “olhar menos viciado”. Inspire-se.

Portal EcoDesenvolvimento.org: Como foi que você começou com o jornalismo social?

Rosina Duarte: Eu brinco que jornalismo social é na verdade uma repetição, pois jornalismo que não é social não é jornalismo. Pra mim, é o mesmo que dizer “gato felino” e “cachorro canino”. Eu sempre trabalhei como repórter na área ligada às questões dos direitos humanos. Após 16 anos em veículos, eu saí com a proposta bem clara de continuar trabalhando com os direitos humanos. Quando decidi que queria mudar, compartilhei essa vontade com duas colegas, e nós fundamos a Alice. Depois de muitas conversas, nós decidimos que tinha que ser um trabalho voltado para o direito à comunicação. A gente quer que as pessoas saibam que têm esse direito.

Qual foi o primeiro trabalho da Alice?

Foram as oficinas que chamávamos de “Educação para a mídia”, na falta de um termo melhor. Nessas oficinas, a gente pegava vários eventos que mostravam como a mídia tratava as questões sociais. Depois a gente começou a pensar em trabalhar com grupos que são privados desse canal de comunicação, principalmente, a grande impressa que não documenta a realidade dos moradores de rua, presidiários, prostitutas e idosos. Falar sobre eles é super importante. Se o leitor não tiver informação sobre essas pessoas, ele não vai ter uma visão crítica da realidade. Então, o objetivo é atingir os dois lados, para quem produz a notícia e para quem lê a notícia.

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Reunião de pauta do jornal Boca de Rua/Foto: Luiz Abreu

Nesse tempo vocês desenvolveram o jornal “Boca de Rua”. Como ele funciona?

A nossa primeira experiência nessa vertente, que até hoje é a mais conhecida, é o jornal “Boca de Rua”, que agora em agosto completou 11 anos sem nunca interromper uma única edição. Ele é produzido e vendido por moradores de rua. Todo o funcionamento é decidido pelo grupo, até mesmo em relação ao dinheiro. Ao longo desses 11 anos, o jornal já ganhou prêmios e quem decide como vai ser aplicado o dinheiro da premiação são os próprios moradores. Todos os acordos e regras de pagamento são feitos por ele.

Isso é uma experiência única no mundo, até onde sei. O Boca pertence à rede INSP (International Network of Street Papers) que são em torno de 100 jornais em 40 países. Mas a maioria deles é só vendido por moradores de rua ou tem colaboração, mas nenhum funciona dessa forma que o Boca funciona – desde a pauta ser decidida por eles, até a realização das entrevistas e as fotos, assim como a produção do jornal e a venda.

Como é a produção das notícias?

É meio engraçado, porque nenhum de nós tem cargo. Eu sou a jornalista responsável porque é preciso ter uma jornalista legalmente responsável pelo jornal.

O Boca funciona assim: a gente tem reuniões semanais, de aproximadamente duas horas, com todos os 25 integrantes. Nessas reuniões decidimos como vai ser a edição trimestral e eles recebem em torno de 35 a 40 jornais para venda, por semana. Como esse dinheiro é para eles, não é preciso nos dar explicação.

Para entrar no Boca, nós temos até 35 vagas, não precisa fazer ficha de inscrição, nem ter ficha limpa na polícia, ou deixar de usar drogas. Mas durante a reunião não pode estar alcoolizado nem nada do tipo. Para vender algum jornal, primeiro, é preciso participar de três reuniões para na quarta receber as cópias.

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Além de produzirem o jornal, os integrantes do Boca de Rua também participam de manifestações, como a Marcha dos Excluídos
/Foto: Alice

Durante as reuniões são formados três grupos que irão cobrir três pautas. Eles próprios escolhem as pautas e o facilitador do grupo orienta quem deverá ser entrevistado, quais são as perguntas e quando serão realizadas as entrevistas. Depois que os moradores fazem a apuração, com ajuda de gravador e máquina fotográfica, o facilitador vai pegar o material e conversar com o grupo para montar um texto coletivo, com a própria linguagem usada pelos moradores.

Como a maioria é analfabeto funcional, eles têm dificuldade de transferir para o papel tudo aquilo que eles sabem sobre o assunto. Mesmo com a ajuda do facilitador, esse é um processo trabalhoso porque além do texto estar de acordo com que eles querem, é preciso que siga as regras de importância do jornalismo, com o “o quê”, “quando”, “onde” no topo do texto, por exemplo.

Qual o principal objetivo do projeto?

O Boca é um projeto de comunicação que não tem uma proposta assistencial, nem de tirar ninguém das ruas ou ajudar as pessoas. Mas, como a gente trabalha em parceria com o Grupo de Apoio à Prevenção à Aids (GAPA), a gente tenta trabalhar em rede essa parte do apoio à saúde e assistência.

A principal proposta do Boca é trazer a comunicação como algo transformador para a vida dessas pessoas. Para que elas saiam da condição de pedinte e passem para a situação de trabalhador, de olhar as pessoas nos olhos e conversar com elas até mesmo para vender o jornal. É engraçado como eles se transformam, como começam a falar e opinar sobre questões de forma muito viva.

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Mulheres bageenses de terceira idade são co-autoras do livro Contos Sem Fadas/Foto: Alice

A Alice realiza outros projetos que não sejam com moradores de rua?

A partir do Boca, a Alice desenvolveu outros vários projetos, com prostitutas, presidiárias e mulheres idosas da fronteira com o Uruguai. Baseado nessa metodologia, mas sempre aplicando de acordo com a linguagem e a cultura de cada grupo.

Há pouco, lançamos uma trilogia de livretos chamada Mulheres perdidas e achadas. O primeiro é um folhetim feito por prostitutas chamado Mariposa. O outro é um conjunto de cartas feito pelas presidiárias, chamado Pombo Correio. E o último é o Almanaque da Maturidade, que é feito por mulheres idosas moradoras na fronteira com o Uruguai.

O Boca também tem um encarte infanto-juvenil feito por crianças de risco social. A produção dele começou com os filhos dos participantes, que vinham para as reuniões. Quando eles começaram a aparecer, a gente não sabia o que fazer, porque uma coisa é você lidar com adultos e outra é lidar com crianças, mas a gente não podia enxotá-los por ser apenas um projeto de adulto. Então a gente criou o Boquinha.

Nós os levamos a museus, teatros, passeios de barco e cinema, e a partir daí eles produzem textos que viram um suprimento infantil no jornal. Essas crianças, hoje, estão todas com famílias. Nenhuma é moradora de rua e todas matriculadas. Elas recebem uma ajuda de custo de R$ 40,00 mensais por criança, feita por doadores pessoas físicas. As mães vendem os jornais e participam de uma reunião mensal. O grupo, que se autobatizou de “Mãe Coruja”, possui uma coluna no jornal.

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Em 2005 as reuniões do Boquinha passaram a ser feitas no Bandeijão Popular, perto do Estádio do Grêmio. Os adultos se encontravam na pracinha em frente/ Foto: Alice

Após 11 anos de trabalho, você ainda fala da Alice com bastante empolgação. Você ainda se sente estimulada a continuar com o projeto?

O Boca já faz parte do meu DNA profissional, não consigo me imaginar sem o Boca e a Alice. O incrível de um trabalho como esse é que eu cheguei no projeto achando que eu ia ajudar. O meu discurso não era esse, mas no fundo eu achava que iria colocar a minha experiência na profissão a serviço de um grupo. Porém, quando eu cheguei lá, percebi que não era nada disso. A gente tinha que fazer uma troca, é aquela velha história de Paulo Freire, você ensina aprendendo e aprende ensinando.

Eu tinha que ser alfabetizada naquela realidade para que alguma coisa pudesse ser boa e real, ou então seria só mais um projeto. O começo do Boca foi muito duro. Essa construção de confiança, esse espaço de realmente partilhar… Quando você vê, você está achando que a sua forma de vida é a que serve para todo mundo, embora você não diga isso. Mas esse confronto com a minha hipocrisia inconsciente foi a coisa mais fantástica que me aconteceu. Eu olhava para aquelas pessoas e me sentia surpresa, até hoje me sinto – isso ainda é uma forma de subestimar.

Outra coisa foi a conquista da alegria e do afeto do grupo. As pessoas acham que trabalhar com moradores de rua é um trabalho muito pesado, as vezes é, a gente tem muitas perdas, principalmente, no inverno. Mas na maioria das vezes é muito alegre. Na semana passada, por exemplo, teve um churrasco de um galeto maravilhoso, que eles fizeram tudo e eu fiquei de braços cruzados.

Existe um potencial de alegria e criatividade, de resolução da vida sob as piores condições, que é transformador. Porque você consegue enxergar a vida por um outro lado. Eu tenho muito prazer em trabalhar com eles e acho que esse é o meu maior patrimônio. Viver a vida dessa forma menos preconceituosa e com um olhar menos viciado.

Sonhos e realizações

Sou dessas que acredita no início de um novo ano a cada aniversário. Para mim, aniversário é assim mais importante que réveillon, já que marca a chegada de um ano novo só para determinada pessoa. Aí sim é a hora de desejar novas alegrias, aí sim é a hora de desejar realizações. Porque cada boa energia que passamos para o aniversariante vai acompanhá-lo em seus desafios.

O meu aniversário é amanhã. No dia 5 de setembro de 2011 eu chegarei aos 22 anos e, o que me incomoda é que ainda não terei realizado metade dos meus sonhos.

Sim, apesar de eu não acreditar muito na palavra “sonho” -acho ela muito romantizada- e preferir algo como “meta a ser alcançada”, eu tenho isso que as pessoas chamam de “sonhos”. Colocar essas vontades de realização em termos práticos me faz visualizá-las melhor, como em uma lista que eu vou cortando cada item até terminar a tarefa. Muito mais fácil de entender como chegar lá. Porque eu quero chegar lá.

Se eu sou dessas que acredita na boa energia dos aniversários, não será novidade se eu afirmasse que acredito na posição dos astros como meio para explicar os acontecimentos e as pessoas. Quem curte astrologia sabe que antes de cada aniversário a pessoa passa pelo “inferno astral” -aquele período que marca o signo anterior ao seu.

Durante o inferno astral não é aconselhado realizar negociações, inícios de namoro, casamentos… se possível, nem saia de casa (ironia mode on). Como sou de virgem (signo que toma a maior parte de setembro), meu inferno astral é no mês do desgosto – agosto. Então para mim, não sei se para vocês, mas o mês de agosto tem grandes possibilidades de ser um problemão.

Felizmente em 2011 eu não perdi nenhum melhor amigo, nem enfrentei desilusões com o trabalho de conclusão de curso. Felizmente 2011 serviu apenas para me mostrar que eu preciso perseguir as minhas metas de vida, vulgo “sonhos”. Como diz o ditado, “o que não mata, engorda” e como diz a minha tão pouca sabedoria: são as atitudes frente aos nossos problemas que mostram as pessoas que somos. E são os resultados dessas atitudes que nos dão força, ou não, para continuar com a nossa vida.

Então é isso Novo Ano. Fique sabendo que eu já me fortaleci e estou pronta para perseguir mais uma meta. Fique sabendo que você será cheio de realizações e que, com você, eu serei cheia de alegrias.

“Quanto maiores e mais belos forem os teus sonhos, mais ainda deverás aprimorar tua personalidade para que consiga dar suporte a esses, tornando-a eficiente instrumento de realização. Sonhar muito e realizar pouco é a ferida mais profunda desse complexo reino da natureza que chamamos de humanidade. A fragilidade da personalidade consiste em perder tempo, agir sem atrevimento e procrastinar infinitamente os assuntos verdadeiramente importantes. Aqui não é lugar de sofrimento, mas tampouco é de descanso. A existência é uma oportunidade de expressar sem a ajuda de intermediários o que for mais profundo na alma, aquilo que manifesta o vínculo íntimo com a Vida maior na qual nos movimentamos e experimentamos ser.” – Oscar Quiroga

“Loucos e Santos”

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.

Na primeira vez que li este poema de Oscar Wilde eu devia ter uns 16 anos. Lembro que terminei de ler e comecei a pensar em quais eram os meus amigos e quais se encaixavam na descrição do escritor, para ver se aquilo era verdade para mim.

Mas não consegui visualizá-los muito bem. Meus amigos da época não tinham essa ideia de que era preciso saber o “valor do vento no rosto” e “não ter pressa”. Nós eramos (ainda somos) jovens, tínhamos pressa! E eu tenho consciência de que não sabia aproveitar a vida direito, pensava apenas em estudos e na carreira que queria seguir.

Felizmente, eu pude me identificar com pelo menos um verso do poema, aquele que diz “tenho amigos para saber quem eu sou”.

Foi daí que eu comecei a pensar que esse fosse o conceito de amizade. Amigo é aquele em que você se reconhece, admira as atitudes e quer estar do lado dele por ele ser tão especial. A partir disso eu sempre procurei coisas lindas nos meus amigos e encontrei um pouquinho do que eu queria ser em cada um deles.

E esse sentimento não se extingue. A distância e o dia a dia não podem mudar o que cada um é na essência, e o simples contato ou um gesto faz lembrar toda aquela sabedoria que estava guardada e talvez até esquecida.

É claro que nenhum deles é perfeito, muito menos eu, mas isso também não é ruim. Há um tempo atrás um amigo me disse sem ter nem pra quê que “ninguém é uma coisa só” e isso ficou martelando em minha cabeça por dias. Foi aí que eu, que sempre tive esses conceitos de certo e errado bem definidos, comecei a perceber que tudo isso era besteira e que “a ‘normalidade’ é uma ilusão imbecil e estéril”.

Pois é, Oscar Wilde, já te entendo e comungo das suas ideias.

A receita para cuidar da natureza com o coração

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A organização Makaya tem apenas 1 ano/ Foto: Casa do Zezinho

Apesar de não ter aprendido noções sobre preservação dos recursos naturais desde criança, Carolina Lefemina sempre gostou da natureza. Aos 35 anos, ela criou a Makaya, uma ONG para realizar trabalhos de reinserção de animais silvestres em seus habitats e desenvolve um projeto com as crianças da Casa do Zezinho.

Na escola, ela criou uma metodologia de ensino ambiental completamente diferente do usual, seu objetivo é fazer com que as crianças gostem de cuidar do meio ambiente “com o coração”.

Leia abaixo a entrevista e entenda como projetos como a criação de uma horta ou a troca de copinhos plásticos por canecas pode fazer com que as crianças e os jovens compreendam a preservação e cultivem amor pela natureza.

Portal EcoDesenvolvimento.org – Como surgiu o Makaya?

Carolina Lefemina - O Makaya surgiu de uma vontade minha de fazer reinserção de animais silvestres na vida selvagem. Eu sempre trabalhei com animais, fui adestradora durante 15 anos, e o meu objetivo é trabalhar para devolver esses bichos à natureza. A partir daí comecei a realizar parcerias com pessoas que querem ter aproximação com o meio ambiente. Dessa forma, eu tomo conta dessa temática nos projetos das pessoas com quem trabalho.

Qual a principal proposta da ONG?

O Makaya quer educar as pessoas para a preservação e o cuidado com o meio ambiente. Hoje, na parceria que eu realizo com a Casa do Zezinho, eu cuido do meio ambiente através das crianças.

Como funciona o trabalho com os zezinhos?

Nessa parceria, nós criamos mecanismos de educar os zezinhos para a preservação. Um deles é o Caminho da Transformação, que começa em uma Ecocabana. Ela foi construída pelos próprios zezinhos e seus pais.

Nós escolhemos pais que já tinham experiência como pedreiros ou que estavam desempregados e os levamos para um curso de capacitação em permacultura, chamado Casa do Homem. Lá eles aprenderam a fazer bioconstrução.

A cabana foi montada com garrafas PET recheadas de sobras de materiais das aulas dos zezinhos, com a massa feita de adobe com jornal, cola e barro, e com estrutura de restos de metais de construção civil. Na Ecocabana, os zezinhos têm aulas de vídeo, com filmes relacionados ao meio ambiente.

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Aula na EcoCabana/Foto: Casa do Zezinho

O percurso do “Caminho da Transformação” é grande…

Então, após a cabana, tem uma “Calçada da Fama” com pegadas de bichos que estão em fase de extinção, daí eles chegam na parte que eu considero o coração do projeto, que é o “Meu Refúgio”, um pedaço de mata fechada, onde os alunos devem ficar em silêncio e podem sentir o cheiro do mato. É nesse ponto que a gente quer tocar no coração desses meninos, fazer com que eles sintam gratidão pela natureza e por tudo o que ela nos oferece (a água, o fogo, a terra e o ar). Fazer com que eles entendam que são parte disso e que a natureza está aí, responsável pela vida deles.

Depois temos viveiros de coelhos, cabras, codornas e também um viveiro aberto para pássaros. Nós queremos implantar a ideia de que os animais não precisam estar presos para serem cuidados pelas pessoas.

No futuro nós queremos fazer uma ação com o IBAMA para devolver papagaios dos alunos à natureza. Um dado curioso é que três em cada 10 alunos da Casa possuem papagaios. Eles sabem que é errado, mas muitos não sabem que podem devolver os animais e nós queremos realizar uma ação de reinserção desses pássaros.

Os alunos também participaram da criação desses espaços?

Sim, eles também plantaram um jardim com mais de mil sementes. A primeira tentativa não deu certo, todas as mudas morreram e eles passaram por uma frustração, além de entender a dificuldade que uma planta tem de nascer e o tempo que demora para germinar. Eles produziram outras mudas, na própria estufa da Casa.

E os alunos participam ativamente das ações?

Eles adoram essas ações e participam diariamente. Outro projeto nosso foi a implantação de reciclagem na escola, feito com a cooperativa que uma mãe de zezinho participa.

Nós colocamos as lixeiras e explicamos a eles como é que funciona o sistema: todos os dias, em rodízio, um grupo de zezinhos de todas as classes de aula são fiscalizadores do Makaya. Eles recebem aventais e boné de identificação e passam por toda a escola olhando as lixeiras e as plantas – assim que os bichos chegarem também vão cuidar deles. E para acabar com esse hábito de jogar o lixo no chão, que tinha muito, nós criamos uma parceria entre o pessoal da limpeza e os zezinhos que participam do Makaya, porque aí, no local que está sujo ou que o pessoal não está jogando lixo corretamente, os alunos avisam ao pessoal da limpeza.

Vocês também implantaram o uso de canecas em vez de copinhos plásticos…

A Casa do Zezinho consumia cerca de 60 mil copos plásticos por mês e isso incomodava muito a Tia Dag. O copinho plástico, por mais que ele seja levado para a reciclagem, é pouco reaproveitado. Nós tínhamos a ideia de introduzir o uso das canecas, mas não sabíamos como fazer. Foi então que um grupo de alunos viu a nossa bióloga com uma caneca pendurada na calça e também quis. A partir desses jovens, a escola toda (com mil e duzentos alunos) quis usar as canecas. Agora todos têm caneca, não se usa mais copo plástico na casa, e até os visitantes podem comprar canecas para beber água e depois doá-las para os alunos.

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Os próprios alunos tomam conta das plantas e da fiscalização do lixo/Foto: Casa do Zezinho

Qual foi o modo que vocês encontraram para fazer com que os alunos entendessem a necessidade de cuidar do meio ambiente?

Nós começamos com a ideia de que eles precisam colocar a mão na massa em tudo, são eles que mexem na terra e cuidam das plantas, que veem se as coisas estão dando certo ou não. No começo, nós tivemos uma dificuldade de como trazer isso para os zezinhos. Uma de nossas primeiras conversas foi justamente isso, qual o papel deles na preservação do meio ambiente, seja contra o aquecimento global ou no cuidado com as espécies. Eles diziam que não tinham nada a ver com o derretimento das geleiras e com a extinção dos micos-leões-dourados, por exemplo.

Então nós fizemos com que eles percebessem que tinham que cuidar dos recursos mais próximos, como o ar que respiram e a água que bebem. A ideia é fazer com que eles poluíssem menos e produzissem menos lixo.

Muito dessa filosofia é realizada em parceria com a nossa bióloga, que direto realiza atividades de reciclagem e reutilização com as crianças para que eles passem a entender da preservação com o coração, porque aí fica mais fácil.

Antes da Casa do Zezinho, quais ações o Makaya já realizou?

O Makaya só tem um ano, mas nós já realizamos outras duas ações, uma no Lar Doce Lar (quadro do programa Caldeirão do Huck, da Rede Globo) e uma com o Projeto A Gente Transforma (AGT), em parceria com o Marcelo Rosenbaum e a Suvinil. Nesse projeto nós fizemos uma revitalização da quadra de esportes do Parque Santo Antônio, em São Paulo, e o Makaya entrou com o objetivo de fazer com aquilo tivesse o menor impacto ambiental possível. Nós reutilizamos o material utilizado na ação e plantamos mais de 100 árvores em torno do campo.

Nessas ações que você faz parte, é possível perceber se a comunidade agrega esses valores de sustentabilidade?

Nossa, tem coisas que ficam guardadas em nossa cabeça, coisas que dinheiro nenhum compra. Nessa ação do AGT, por exemplo, nós passamos o dia plantando árvores, fomos na comunidade apenas para plantar e explicar como fazer para preservar as plantas.

Quando terminamos, a gente entregou balas para as crianças que participaram e nos ajudaram com as mudas, e um garoto me chamou atenção. O lugar que foi revitalizado fica em meio a um lixão, sabe? E tem sacos de lixo e resíduos espalhados por todos os lados. Quando aquele menino ganhou a bala e desembrulhou, ele ficou sem saber onde jogar o papel. Ele olhou para todos os lados e moveu mais de vinte passos para chegar a uma lixeira, mas não jogou no chão.

Nós não estávamos lá para falar que não se podia jogar lixo no chão, a gente estava lá para revitalizar a comunidade. E eu acho que aquilo o tocou. Acho que ele pensou que agora, já que estava tudo arrumado, ele não ia ajudar a sujar.

Isso ficou guardado em minha memória.

A moda e o artesanato juntos pelo desenvolvimento social

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A lâmpada da foto é coberta pelo bordado feito pela cooperativa/Foto: Marcos André Pinto

Há 30 anos, a estudante de sociologia Maria Teresa Leal resolveu realizar projetos sociais de arte e educação com crianças na Rocinha, mas não sabia que ali montaria um projeto de valorização cultural. A Coopa-Roca é talvez a cooperativa de bordado e artesanato mais bem sucedida do Brasil e foi pioneira no modelo que utiliza a mão de obra comunitária para produção de itens de moda.

Atualmente, as cerca de 100 mulheres da organização produzem peças para grifes nacionais e internacionais, e já participaram de semanas de moda de Rio de Janeiro, São Paulo, Londres e Tóquio.

Aos vinte e poucos anos, Teresa achou que se não fizesse algo pelo social naquele momento perderia a oportunidade e a vida te traria amarras. Mas foi assim, se envolvendo com mães bordadeiras da comunidade da Rocinha, que criou o seu trabalho e se envolveu por tanto tempo nessa empreitada. Conheça as ideias inspiradoras dessa mulher que ainda vê novas possibilidades de crescimento.

Portal EcoDesenvolvimento: O que te motivou a começar a se envolver com a comunidade?

Maria teresa - Foi em 1981, o que me motivou foram escritos de Paulo Freire. Na época eu já trabalhava com arte e educação e estava começando o meu curso de sociologia. Com Paulo Freire eu entendi que eu queria fazer um trabalho em uma comunidade do rio de janeiro e entendi que era a hora de começar.

Como surgiu essa ideia de trabalhar com as artesãs?

Quando eu cheguei na Rocinha em 1981, eu descobri que a maior parte da população é formada por migrantes nordestinos, mais especificamente de pessoas vindas do Ceará. Esse é um estado brasileiro que tem um potencial muito grande no que se refere à produção artesanal, principalmente a têxtil.

O meu primeiro trabalho lá foi uma oficina de reciclagem para crianças, porque na época eu dava aula de artes. Então, tentando diversificar o material de arte das classes eu cheguei a um representante de fábrica de tecido e ele me deu um mostruário de uma coleção anterior.

Quando eu levei para a Rocinha, as mães dos alunos falaram para eu não utilizar aquilo nas aulas, porque elas poderiam dar um fim mais útil ao material. Elas produziram tapetes, almofadas e cobertas na tentativa de buscar alternativas para melhorar suas condições de vida. Eu achei a ideia muito bacana e foi daí que começa a sementinha que gerou a Coopa-Roca.

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Foto: Acervo pessoal

Como foi a transformação do projeto em cooperativa?

No início era um grupo de artesãs trabalhando juntas, mas não formalizar aquilo deixava o trabalho muito isolado. Para a gente buscar mais alternativas era preciso formalizar e constituir o grupo. A ideia era justamente criar uma autonomia para o grupo de mulheres e não ficar dependendo de terceiros.

Então discutimos as possibilidade de fazer uma cooperativa ou uma associação. Chegamos à conclusão que uma cooperativa era mais interessante já que a gente tinha como missão produzir e vender produtos, quando em uma associação isso ficaria um pouco mais complicado.

Como foi a criação da primeira coleção da Coopa-Roca?

O primeiro trabalho foi em 1982, quando elas produziam o que já sabiam fazer. Passo a passo a gente foi aprimorando o conhecimento e a qualidade e foi diversificando o produto. Mas foi em 1994 que a gente aproximou a Coopa-Roca do mundo da moda, quando a coorperativa começou a participar de desfiles.

Como foi esse processo de inserção no mercado da moda?

De fato, em 1994, tivemos muitas parcerias e visibilidade por parte dos jornalistas, mas sem ainda sistematizar a produção. Nós fomos conseguir gerar um fluxo de produção e tornar a cooperativa sustentável no ano 2000, quando começamos a fazer parcerias comerciais. Essas parcerias foram resultado da exposição “Retalhar”.

A ideia da Retalhar era criar uma nova forma para a produção têxtil brasileira através da produção em conjunto com os artistas, designer e estilistas. Mas mais do que isso, o principal objetivo das três edições foi firmar parcerias comerciais para a cooperativa. E foi com isso que, desde 2000, a Coopa-Roca passou a ser autossustentável.

Através das parcerias comerciais, a gente tinha as ordens de produção, produzia em escala, entregava para os parceiros, que pagavam à cooperativa e se responsabilizavam pela comercialização dos produtos.

No site da Coopa-Roca é possível conhecer os trabalhos especiais realizados pela cooperativa e as oportunidades que surgiram de cada produção. Na exposição Retalhar, por exemplo, a Coopa Roca pode firmar parcerias comerciais coma marcas como Osklen, M. Officer, Miele, Ernesto Neto, Interni, Fernando Jaeger, entre outros.

Como está a produção da Coopa-Roca atualmente?

No ano passado, a Coopa-Roca deu mais um passo, que foi lançar o produto com etiqueta própria. A gente está dando uma virada no modelo de negócios e isso não é fácil para ninguém. Essa reestruturação tem demandado bastante trabalho e muita energia, mas estamos enfrentando os desafios das mudanças.

Como é montado o esquema de produção das cem artesãs?

O objetivo principal da Coopa-Roca é gerar oportunidade para elas trabalharem em casa, isso é uma demanda das mulheres, sabe? Estar perto dos filhos. Para que ao mesmo tempo em que elas melhoram seu poder aquisitivo, elas possam contribuir para o comércio local.

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Foto: Acervo pessoal

Como é poder fazer parte dessa iniciativa e ver o quanto ela ajuda no desenvolvimento da comunidade da Rocinha?

A Coopa-Roca foi pioneira nesse modelo de geração de trabalho e renda relacionando o potencial das comunidades com o setor da moda. A gente não só está fortalecendo o local, como está gerando uma nova visão, um novo modelo e instrumentos desse tipo de organização.

Óbvio que há pessoas que aplicam esse modelo com muitas distorções. Há algumas instituições que vêm trabalhando e tentando promover o desenvolvimento do trabalho do artesão, mas também tem muita coisa sendo feita na tentativa de ajudar que mais complica do que ajuda.

Quando a gente mexe com a produção artesanal, a gente mexe com tradições. No Brasil, a produção artesanal tem uma tradição cultural muito enraizada, como um artesanato mais folclórico, sem uma estética de venda. Por isso, ao mexer nessa produção artesanal é preciso ter cuidado para não alterar essa cultura em busca de espaço no mercado e banalizar a produção. É preciso ter atenção às condutas e modelos de interferência. Isso é muito delicado.

O trabalho de uma mãe comunitária

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Dona Teresinha carrega os materiais com a ajuda de um carrinho de mão/Foto: Acervo pessoal

Pesquisas mostram que mulheres sempre foram maioria nos movimentos sociais para melhorar as condições de sobrevivência da comunidade. São elas que, na maioria das vezes, ficam com a guarda dos filhos e se preocupam com a criação. Elas querem um mundo melhor para eles, com melhor educação, saúde, condições de moradia e trabalho. E é por isso, principalmente, que se envolvem em projetos sociais.

No Dia das Mães, o portal EcoDesenvolvimento.org mostra a história de uma “mãe comunitária”. Dona Teresinha tem cinco filhos (o mais velho já está criado e mora em São Paulo, enquanto o mais novo tem sete anos) e é pensando neles e nas outras crianças de Iporanga, cidade a 360 km da capital São Paulo, que recolhe resíduos recicláveis de mais de 70 localidades – puxando tudo em um carrinho de mão.

A cidade onde dona Teresinha mora não possui coleta seletiva, mas essa senhora de 52 anos não teve dúvidas quando resolveu coletar os materiais recicláveis da vizinhança e entregar a uma empresa de reciclagem. Já faz mais de seis meses que ela coleta, separa, limpa e guarda toneladas de resíduos em sua própria casa e ainda há muita vontade de continuar.

EcoDesenvolvimento.org: Quando você começou a catar os materiais recicláveis de sua cidade?

Dona Teresinha - Eu já separava os materiais da minha residência há mais de 15 anos, mas a minha cidade não possuía coleta seletiva. Eu comecei a recolher materiais recicláveis há seis meses, quando fui dispensada do hospital onde eu trabalhava como técnica de enfermagem e quis fazer alguma coisa para dar destino a todo esse lixo. Por exemplo, baterias e lâmpadas, o pessoal jogava misturado com outros resíduos no lixo comum, então eu descobri que a Eletro (a companhia que fornece energia para Iporanga) recolhe esses materiais e já separo para entregar no posto de coleta.

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Quando chega perto da data de entrega, a casa parece um depósito/Foto: Acervo pessoal

Como você fez para conseguir reciclar os resíduos recolhidos?

Eu entrei em contato com uma empresa que faz esse serviço na cidade vizinha, em Apiaí, e consegui com que um caminhão venha buscar o material em dois em dois meses. Esse tempo de espera é para eu juntar mais de uma tonelada, que é a quantidade precisa para que a empresa busque o que eu juntei. Eu recolho material em cerca de 70 residências e empresas, como mercados e farmácias, do meu bairro. Mas no bairro da Serra, por exemplo, eu não tenho como buscar porque é muito distante.

Agora imagine, se eu já juntei sete toneladas e meia em apenas 70 casas, quanto não deve ser de lixo nessa cidade que tem cerca de 5 mil habitantes? Eu não tenho como pegar todos os resíduos dessas pessoas.

Que tipo de material você coleta?

Eu coleto de tudo, desde garrafa PET a pedaço de ferro. Coleto canos, lixo eletrônico, caixa de leite, papel de chiclete, papelão, plástico – tudo o que dá para reciclar levo para a minha casa e faço a separação. Quando fica próximo da chegada do caminhão, aqui em casa fica cheio de material, cada área com o que lhe é de direito. Tem cantinho de lata, cantinho de garrafa PET e de outras coisas que me entregam no dia a dia.

Quanto dá para tirar com essa coleta a cada dois meses?

Como eu não tenho meio de transporte, eu consigo coletar em dois meses, duas toneladas e meia de material. A depender do material coletado o valor da entrega pode chegar até R$600. Resíduos como motor de geladeira, que possuem cobre, têm muito mais valor do que o vidro, por exemplo.

A senhora acha que vale a pena tanto esforço?

Pelo valor, não, mas pela natureza, sim. A gente está tirando o lixo que iria parar na natureza… Se a gente pensar no valor arrecadado com cada objeto a gente desanima, mas se a gente pensar no meio ambiente, vale a pena se esforçar sim.

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Dona Teresinha recolhe todos os tipos de materiais recicláveis/ Foto: Acervo pessoal

A senhora pretende trabalhar com isso por muito tempo?

A minha vontade é montar uma coleta seletiva aqui no município. Esse é o meu sonho. Eu acredito que Deus vai me ajudar a conseguir fazer com que todos os resíduos de todos os bairros do município sejam reciclados e que seja mandado o mínimo possível de lixo para o aterro.

A prefeitura de Iporanga possui algum projeto de implantar a coleta seletiva na cidade?

Tem um projeto na prefeitura que já faz uns 20 anos, mas até agora não saiu do papel. Há um tempo, eu tomei a iniciativa de mostrar à prefeitura o quanto é grande o consumo do nosso município e a minha ideia de montar uma coleta seletiva, mas não recebi nenhuma resposta. A responsável por questões ambientais me disse que é necessária muita burocracia.

Então eu desisti de buscar apoio da prefeitura e resolvi coletar o resíduo do meu próprio bairro… eu senti uma alegria tão grande de quando eu pude levar as duas primeiras toneladas de resíduo. Foi como se tivesse tirado um peso das costas.

Como você faz para coletar todo esse material?

Eu carrego tudo num carrinho e deposito no meu próprio terreno, onde eu montei um barracão improvisado com telhado para colocar os materiais. Como é muito objeto, eu vou acomodando e secando todos eles aos poucos, eu tenho que ter o cuidado de que nada acumule água ou larvas, por isso tampo todas as garrafas e cubro tudo com um plástico.

Graças a Deus ninguém nunca reclamou de foco de dengue nem nada. Em um outro bairro, os vizinhos estavam reclamando da quantidade de mosca, que estava absurda. Mas graças a Deus isso não acontece aqui em casa, eu disse a eles que deve ser a quantidade de sapo que tem por aqui [risadas...].

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Para dona Teresinha, quando chega a data de entrega “é um alívio”/ Foto: Acervo pessoal

Você acha que a sua comunidade está mais preocupada com o destino do próprio lixo?

Estão sim. Sempre que eu passo pelas ruas recolhendo encontro mais uma pessoa que quer participar e separar o material. No bairro da Serra, que é um bairro turístico daqui de Iporanga, tem uma pousada que, quando é feriado e acumula muito lixo, manda uma caminhonete aqui para me entregar o material reciclável.

A gente percebe que eles não têm preguiça de separar o material, que entendem que é por uma boa causa e me ajudam nisso.

De onde você tira essa força para continuar a recolher tanto material, mesmo sozinha?

De Deus e da natureza [pausa...].

Eu acho que o trabalho que eu estou fazendo é bom para a minha cidade, já que vai dar um destino a tanto material que demora de se decompor e suja a nossa região. Esse lixo pode contaminar as nossas águas. Acho que Deus me dá forças para continuar fazendo o meu trabalho. Porque o que eu quero mesmo é deixar essa raíz pros meus filhos e pras outras crianças que estão vendo o meu esforço e admiram. Quanto mais força eu tiver, mais eu quero trabalhar para implantar a coleta em todos os bairros. Se Deus quiser.

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