
Foto: Divulgação
Para André D’Elia, o Brasil não tem noção do que acontece na Amazônia. Não há informação e qualquer artigo que descreva um dos problemas enfrentados é pouco comparado a imensidão da floresta.
Há quase dois anos, o cineasta está focado na luta contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu (Pará), quando resolveu fazer um documentário sobre o tema. Desde então, tem coletado depoimentos, conhecido pessoas, lugares e trabalhado para concluir o filme que mudou o seu modo de ver a região.
D’Elia afirma que Belo Monte vai trazer impactos negativos aos povos indígenas e à comunidade do rio Xingu, mas também acha que o cenário ainda pode ser revertido, com o apoio da sociedade brasileira em favor da preservação da Amazônia e o desenvolvimento sustentável local.
O que o cineasta viu e ouviu na Amazônia, a sociedade brasileira só poderá saber quando Belo Monte, anúncio de uma gerra for lançado. Mas o internauta do EcoDesenvolvimento.org pode ter um gostinho do filme nas palavras que André D’Elia nos oferece na entrevista abaixo.

André D’Elia e a equipe de áudio e fotografia entrevistam no rio Xingu/Foto: Divulgação
Portal EcoDesenvolvimento.org: Com apenas uma parte das imagens que vocês coletaram em um pequeno vídeo divulgado no Catarse, o Brasil se mobilizou para financiar o documentário sobre um dos temas mais polêmicos da atualidade. Na sua opinião, por que isso aconteceu?
André D’Elia: Eu acho que o público tem interesse nas questões do desenvolvimento da Amazônia, porque de certa forme é uma questão mundial. A gente falar sobre o modo como o mundo lida com as riquezas da Amazônia, interessa aos brasileiros e também aos estrangeiros. Esse também é um tema em bastante evidência, que não pensávamos que estaria assim há dois anos atrás, quando a gente começou.
Acho que as pessoas estão dando mais importância porque perceberam que agora é a hora de se esclarecer questões ligadas à Amazônia. Eles querem fazer parte desse coletivo de ajuda.
Como o rio Xingu despertou o seu interesse?
Há vários projetos de hidrelétrica na Amazônia, mas Belo Monte é o maior e será construído no rio Xingu. E como o rio Xingu é um rio dos índios, é uma bacia grande com muitos povos indígenas, no início, eu só enxergava o conflito entre os povos indígenas, o empreendedor e o governo federal – e queria documentar aquilo.
Quais motivos te fazem ser contra a instalação da Usina de Belo Monte?
No princípio eu não era contra. A gente queria fazer um trabalho imparcial sobre o processo de instalação da hidrelétrica. Mas hoje posso afirmar que Belo Monte é um erro. Primeiro por questões da legislação brasileira, principalmente, no que diz respeito às oitivas indígenas. A Constituição brasileira prevê que qualquer tipo de aproveitamento hidrelétrico em terra indígena obriga que os povos sejam ouvidos.

D’Elia (de branco) entre os primeiros participantes do documentário/Foto: Divulgação
Mas depois que passamos tanto tempo conhecendo a região e vendo os efeitos que a hidrelétrica irá causar, é muito fácil ficar contra a instalação da barragem. Não é que a gente seja contra Belo Monte. Nós somos contra a violência com a qual Belo Monte está sendo implementada e a violência que ela gera na região.
Tudo isso envolve questões sociais como prostituição, aumento de estupro, violência contra povos indígenas, problemas sérios de governabilidade em relação às verbas emergenciais; poluição do rio Xingu. Coisas que têm que ser vistas com muita atenção e estão sendo feitas de forma atropelada.
Como foi o início da produção do documentário?
Para viajar e fazer as gravações eu juntei um dinheiro que tinha guardado com a venda de uma moto e um carro. Na verdade, eu cheguei a ficar sem bem nenhum. Na primeira expedição fomos eu e dois parceiros, um diretor de áudio e um fotógrafo. Isso foi na época da licença parcial de Belo Monte, o que é muito louco porque não faz mais de um ano e a nossa mentalidade mudou muito. Na primeira expedição a gente era a favor da barragem, a prefeitura era a favor, os indígenas também. Todo mundo achava que a barragem ia ser uma maravilha. Muito diferente de hoje quando todo mundo é contra.
Qual história que você escutou que melhor descreve situação no Xingu?
Certa vez eu ouvi de um jornalista que os projetos para a Amazônia são impostos. Ou seja, os projetos de mineração e os hidrelétricos não são implantados por pessoas que estão na Amazônia, eles são projetos que vêm de fora, de interesses que desconsideram completamente os aspectos locais.
Lá você tem uma região com tanta diversidade econômica, como castanha, açaí, praias lindas para o turismo, medicina da floresta dos povos indígenas, mas tudo isso é completamente ignorado. Em vez disso, se implementa projetos que só querem retirar e não desenvolver.

O filme deve ser lançado em abril/Foto: Divulgação
Qual a sua expectativa para a reação do público pós-filme?
Eu espero que a história dos povos indígenas sensibilize o público, e que isso contribua muito para o desenvolvimento de uma ética empresarial e de consumo. Porque, no filme, a gente questiona não só o empreendedor que está cometendo uma série de crimes na região, a gente também questiona o consumidor de energia e o modo de vida das pessoas. A gente levanta uma bola para que as pessoas possam se ver naquilo.
Como foi a experiência de gravar tanta informação sobre um mundo ao qual você não estava acostumado?
Foi muito interessante. Quando as pessoas viam que a gente estava montando o filme sobre o assunto, a cada dia surgia novos depoimentos de gente querendo contar alguma sujeira que sabia. A gente virou uma espécie de concentrador de informações que informava e se deixava informar.
Quando vocês pretendem lançar o documentário?
Nós estamos em fase de montagem, que é uma fase complicada, porque temos muito material e ainda não temos certeza de tudo que vai ficar de fora. Mas a ideia é ter o filme já pronto em abril para o lançamento. Depois, nos pretendemos fazer projeções gratuitas e levar para o cinema.
Nós também temos que colocar na internet, que foi até um compromisso que acertamos com os financiadores do Catarse. Mas estamos pensando se vamos fazer algum corte ou colocar em uma linguagem diferente, própria de internet.

Entre as gravações de ‘Belo Monte, uma guerra anunciada’/Foto: Divulgação
Após tanto tempo de viagens e conversas com diferentes pessoas, qual foi o seu maior aprendizado na produção do documentário?
A relação das pessoas. Eu moro em São Paulo, e mesmo amando meus familiares e amigos, vejo eles muito pouco. Mas em uma comunidade indígena as pessoas fazem tudo juntos: comem, tomam banho, dançam, tomam sol… Há uma convivência e um sentir as pessoas de uma forma muito plena. É um aprendizado que eu venho tentando colocar em prática. Eu tenho ligado para meus familiares e dado mais valor aos preciosos momentos em que eu estou na companhia de quem amo.
…

























